MEU EMPREGO, MINHA VIDA (?)
Fernando B.
Azevedo
(Diretor do GAPE-Gabinete de Psicologia Empresarial, Recife)
Ao longo de quase três décadas atuando como
consultores na área de recrutamento e encaminhamento de executivos, temos acompanhado o
drama dos que de uma hora para outra se vêem desempregados. O sofrimento é mais intenso
quando se tratam de pessoas demitidas após uma permanência de 15, 20, 25 ou mais anos na
mesma empresa.
À medida em que o tempo passa esses homens e mulheres experimentam, em especial nas
organizações de grande porte, uma espécie de imersão.
As janelas dessas empresas, distantes dos empregados, dão acesso a um mundo que é a
própria empresa. Para eles, o pátio, os galpões, a área de produção, os negócios,
os colegas tornam-se tão seus que a ruptura lhes causa traumas somente superados após
meses de separação. Além disso, as superestruturas adotam, via de regra, políticas
paternalistas que acentuam a dependência dos funcionários e sua consequente insegurança
quando abandonados.
Para essas pessoas o trabalho passa a significar a própria vida em detrimento da
família, dos amigos e do lazer. Esse afastamento agrava suas dificuldades durante o
desemprego.
Numa organização menor as janelas parecem mais próximas do funcionário, permitindo-lhe
visão nítida do exterior. O mundo lhe é familiar, não ameaçador. Talvez seja uma das
razões pelas quais executivos demitidos de grandes empresas passem a preferir as de menor
porte.
UMA NOVA POSTURA - Na matéria "O Executivo e o Próprio Negócio" publicada na
Exame o autor afirma: " o funcionário da década de 90 deve estar preparado para ser
demitido. A relação permanente com a empresa é coisa do passado. A lealdade do
executivo é para com ele mesmo, para com a sua competência. Segundo estatística
americana, há 20 anos a regra era mudar de empresas apenas duas vezes na vida. Nos dias
atuais são oito trocas".
Especialmente no Brasil a empresa dos anos 90 busca o executivo com visão abrangente,
multidisciplinar; um negociador, um estrategista capaz de conviver com a incerteza,
consciente de que a única coisa previsível na organização é que sempre haverá
imprevistos. O resto é provável.
Hoje, o grande problema do gerente não é tanto saber, mas agir, o que supõe a
mobilização de comportamentos (dentro e fora da empresa). Infelizmente ele foi formado,
e continua sendo, para gerir como nos anos 60 com olhar voltado para um mundo e um mercado
que já se transformaram.
A mudança de postura nas relações empregado-empresa não pode ser instantânea nem
linear. Implica a busca constante de desenvolvimento de todo o potencial, aprendizagem
permanente e contínua, reformulação da própria personalidade. Aqui vale uma reflexão
menos pragmática. A relação de dependência pessoa-empresa chega a criar certa
idolatria do filho para com o pai. O pai (a empresa) passa a ser um modelo idealizado, um
nicho de segurança, que tudo pode, tudo sabe, de tudo é capaz. Isto torna o filho (o
empregado) mais dependente, com poucas condições para uma existência autônoma,
principalmente quando se vê desligado da empresa e tendo que enfrentar, como ocorre
atualmente, acirrada competição no mercado de trabalho.
O APOSENTADO - Para Edith Mota, socióloga da UERJ, o primeiro dia da aposentadoria é
tão difícil quanto o primeiro dia do jardim de infância. "Em nosso país, o
aposentado e o desempregado experimentam, em grau maior ou menor, sentimentos de
inutilidade e de medo de enfrentar a realidade. A aposentadoria se assemelha a um
permanente desemprego. Nos EUA , a maioria das empresas públicas e privadas inicia
programas de orientação aos funcionários dois ou três anos antes de sua aposentadoria
".
A fábrica da Brahma, no Cabo-PE, criou um espaço onde seus aposentados, de qualquer
nível, reúnem-se para conversar, participar de jogos de salão e ouvir música. Recebem
assistência médica gratuita extensiva aos familiares, utilizam os ônibus da empresa e
também, sem qualquer ônus, almoçam no refeitório ao lado dos antigos colegas.
Um dos casos mais emblemáticos do significado da aposentadoria aconteceu em Recife com o
gerente de uma multinacional. Aposentado ao completar 33 anos de empresa, fez questão de
comprar os móveis do seu gabinete de trabalho, que reproduzem hoje, na sua casa, o
ambiente que por um terço de século lhe foi familiar. Atualmente é um bem sucedido
representante comercial com escritório instalado ... adivinhe aonde!
Com o passar dos anos, as pessoas vinculadas à mesma empresa adquirem sobrenomes pelos
quais são mais facilmente identificados. Ferreira da Hering, Dora da Souza Cruz, Gileno
da Chesf. Assim, tanto o desempregado quanto o aposentado podem supor que seu valor vem
desse vínculo.
Evidentemente não esgotamos o assunto. Mas fica aqui um alerta: mais importante do que o
domínio sobre funções gerenciais, processos técnicos-operacionais, produtividade e
outros temas é A COMPETÊNCIA DO HOMEM PARA ANTEVER, AVALIAR E ASSUMIR MUDANÇAS NA SUA
TRAJETÓRIA PROFISSIONAL E NA SUA PRÓPRIA VIDA! |