ARTIGO - Julho de 2000


MEU EMPREGO, MINHA VIDA (?)

Fernando B. Azevedo
(Diretor do GAPE-Gabinete de Psicologia Empresarial, Recife)

Ao longo de quase três décadas atuando como consultores na área de recrutamento e encaminhamento de executivos, temos acompanhado o drama dos que de uma hora para outra se vêem desempregados. O sofrimento é mais intenso quando se tratam de pessoas demitidas após uma permanência de 15, 20, 25 ou mais anos na mesma empresa.

À medida em que o tempo passa esses homens e mulheres experimentam, em especial nas organizações de grande porte, uma espécie de imersão.

As janelas dessas empresas, distantes dos empregados, dão acesso a um mundo que é a própria empresa. Para eles, o pátio, os galpões, a área de produção, os negócios, os colegas tornam-se tão seus que a ruptura lhes causa traumas somente superados após meses de separação. Além disso, as superestruturas adotam, via de regra, políticas paternalistas que acentuam a dependência dos funcionários e sua consequente insegurança quando abandonados.

Para essas pessoas o trabalho passa a significar a própria vida em detrimento da família, dos amigos e do lazer. Esse afastamento agrava suas dificuldades durante o desemprego.

Numa organização menor as janelas parecem mais próximas do funcionário, permitindo-lhe visão nítida do exterior. O mundo lhe é familiar, não ameaçador. Talvez seja uma das razões pelas quais executivos demitidos de grandes empresas passem a preferir as de menor porte.

UMA NOVA POSTURA - Na matéria "O Executivo e o Próprio Negócio" publicada na Exame o autor afirma: " o funcionário da década de 90 deve estar preparado para ser demitido. A relação permanente com a empresa é coisa do passado. A lealdade do executivo é para com ele mesmo, para com a sua competência. Segundo estatística americana, há 20 anos a regra era mudar de empresas apenas duas vezes na vida. Nos dias atuais são oito trocas".

Especialmente no Brasil a empresa dos anos 90 busca o executivo com visão abrangente, multidisciplinar; um negociador, um estrategista capaz de conviver com a incerteza, consciente de que a única coisa previsível na organização é que sempre haverá imprevistos. O resto é provável.

Hoje, o grande problema do gerente não é tanto saber, mas agir, o que supõe a mobilização de comportamentos (dentro e fora da empresa). Infelizmente ele foi formado, e continua sendo, para gerir como nos anos 60 com olhar voltado para um mundo e um mercado que já se transformaram.

A mudança de postura nas relações empregado-empresa não pode ser instantânea nem linear. Implica a busca constante de desenvolvimento de todo o potencial, aprendizagem permanente e contínua, reformulação da própria personalidade. Aqui vale uma reflexão menos pragmática. A relação de dependência pessoa-empresa chega a criar certa idolatria do filho para com o pai. O pai (a empresa) passa a ser um modelo idealizado, um nicho de segurança, que tudo pode, tudo sabe, de tudo é capaz. Isto torna o filho (o empregado) mais dependente, com poucas condições para uma existência autônoma, principalmente quando se vê desligado da empresa e tendo que enfrentar, como ocorre atualmente, acirrada competição no mercado de trabalho.

O APOSENTADO - Para Edith Mota, socióloga da UERJ, o primeiro dia da aposentadoria é tão difícil quanto o primeiro dia do jardim de infância. "Em nosso país, o aposentado e o desempregado experimentam, em grau maior ou menor, sentimentos de inutilidade e de medo de enfrentar a realidade. A aposentadoria se assemelha a um permanente desemprego. Nos EUA , a maioria das empresas públicas e privadas inicia programas de orientação aos funcionários dois ou três anos antes de sua aposentadoria ".

A fábrica da Brahma, no Cabo-PE, criou um espaço onde seus aposentados, de qualquer nível, reúnem-se para conversar, participar de jogos de salão e ouvir música. Recebem assistência médica gratuita extensiva aos familiares, utilizam os ônibus da empresa e também, sem qualquer ônus, almoçam no refeitório ao lado dos antigos colegas.

Um dos casos mais emblemáticos do significado da aposentadoria aconteceu em Recife com o gerente de uma multinacional. Aposentado ao completar 33 anos de empresa, fez questão de comprar os móveis do seu gabinete de trabalho, que reproduzem hoje, na sua casa, o ambiente que por um terço de século lhe foi familiar. Atualmente é um bem sucedido representante comercial com escritório instalado ... adivinhe aonde!

Com o passar dos anos, as pessoas vinculadas à mesma empresa adquirem sobrenomes pelos quais são mais facilmente identificados. Ferreira da Hering, Dora da Souza Cruz, Gileno da Chesf. Assim, tanto o desempregado quanto o aposentado podem supor que seu valor vem desse vínculo.

Evidentemente não esgotamos o assunto. Mas fica aqui um alerta: mais importante do que o domínio sobre funções gerenciais, processos técnicos-operacionais, produtividade e outros temas é A COMPETÊNCIA DO HOMEM PARA ANTEVER, AVALIAR E ASSUMIR MUDANÇAS NA SUA TRAJETÓRIA PROFISSIONAL E NA SUA PRÓPRIA VIDA!

Peyon

Copyright © 1999 Peyon - Treinamento Empresarial em Contabilidade
WebSite desenvolvido pela Nemesis Informática Ltda.
"Todos os direitos reservados."