O CAVALO DE TRÓIA DAS
PRIVATIZAÇÕES
Wagner Siqueira
(Presidente do Conselho
Regional de Administração-RJ)
Não pretendemos entrar no mérito das
privatizações. Se foram benéficas para a
sociedade ou não, se as empresas foram
subavaliadas ou não, se o Brasil está no
caminho mais ou menos adequado ao adotar esse
modelo econômico.
O que queremos discutir é um ponto que, para a
maioria dos cidadãos que acompanham o desenrolar
das questões político-sócio-econômicas de
nosso país, incluindo aí sindicatos e
associações de empregados, passou despercebido
nas discussões que antecederam os leilões e,
mesmo depois, na transição da gestão.
Estamos falando da indiscriminada importação de
mão de obra técnica e gerencial que sucedeu a
chegada ao Brasil de empresas e consórcios
estrangeiros, que passaram a controlar as
ex-estatais.
Observamos que, sem quaisquer interferências ou
manifestações dos órgãos e agencias
governamentais, essas empresas estrangeiras
entraram em nossa economia não apenas com o
controle, não apenas com o intuito de explorar
nossas reservas e/ou nossa população, na medida
em que aumentam abusivamente as taxas cobradas
pela prestação de serviços públicos. Mais do
que isso, os novos donos do poder trouxeram
também para baixo da linha do Equador a versão
globalizada do Cavalo de Tróia.
Explico: ao abrirmos os portos às nações e
multinacionais amigas (?!), sem nos
salvaguardarmos em relação as leis que tratam
da imigração e regulamentam o exercício de
diversas atividades profissionais, milhares de
estrangeiros entram no nosso país sem a mínima
observância da legislação brasileira.
Muitos, se não a maioria, não estão legalmente
habilitados para o exercício profissional no
Brasil e sequer possuem o visto para trabalhar no
país. Entram como turistas, vão até um país
vizinho quando o visto se encerra e retornam no
dia seguinte com novo visto de turista. Imagino
se nós, brasileiros, conseguiríamos, com
tamanha facilidade e permissividade, a mesma
façanha. Entrar como turista para trabalhar na
França, nos Estados Unidos, no Chile ou no
Canadá, por exemplo. Seríamos solenemente
impedidos de exercer qualquer profissão por não
possuirmos a devida autorização legal. Ou seja,
globalização de recursos humanos nos olhos dos
outros é refresco.
Ë inevitável o questionamento: onde estão os
Ministérios da Justiça e do Trabalho que
permitem, ou são coniventes, com essas
ilegalidades bem debaixo dos nossos bigodes? Em
que país teremos, como profissionais
globalizados qualificados os mesmos privilégios
e condescendência governamentais? Nem os grupos
de estudo do Mercosul que trabalham nesse
sentido, obtiveram êxito até agora, dadas as
peculiaridades e diferenças educacionais e
legais de cada país.
Não resta dúvida de que os profissionais
brasileiros, muitos dos quais sofrendo com a
escassez de oferta no mercado de trabalho, têm
competência equivalente ou superior à dos
gringos que se aventuram nesta terra de ninguém.
As empresas estatais e boa parte do setor privado
investiram nos últimos 20 anos na formação de
quadros de ponta, altamente qualificados,
brasileiros detentores de tecnologia e
conhecimento que chegaram (legalmente!) a cargos
de direção em empresas e universidades
estrangeiras.
É com esses excelentes quadros técnicos e
gerenciais que estaremos prontos para atender as
necessidades do nosso principal cliente: a
sociedade brasileira. Porque são os brasileiros
da gema que compreendem e interpretam
adequadamente a cultura, os hábitos, os usos e
os costumes de nossa gente.
Não se trata de preconceito e sim de conceito.
Sem as correspondentes contrapartidas não
estará sendo construída uma relação em que
todos ganhem, mas de submissão à vontade das
multinacionais e de diversos países com mercados
estagnados ou com excedente de mão de obra.
Artigos anteriores:
Dez/99 - Relação
Escritório Vs. Cliente (Carlos de La
Roque, Pres. do CRC/RJ)
Jan/00 - Por
Uma Administração Moderna, Eficaz E Voltada
Para O Público (Wagner Siqueira, Pres.
do CRA/RJ)
Fev/00 - Contabilidade
E Pequenos Negócios Optantes Do Simples
(Luiz Francisco Peyon, Contador)
Mar/00 - Mudanças
e Educação no Ambiente de Trabalho
(Luiz Avelino, Diretor da Avelino Andrade -
Desenvolvimento & Educação Empresarial -
Recife)
Abr/00 - Ciências
Contábeis e Democracia (Luiz Francisco
Peyon, Contador)
|