ARTIGO - Maio de 2000


O CAVALO DE TRÓIA DAS PRIVATIZAÇÕES

Wagner Siqueira
(Presidente do Conselho Regional de Administração-RJ)


Não pretendemos entrar no mérito das privatizações. Se foram benéficas para a sociedade ou não, se as empresas foram subavaliadas ou não, se o Brasil está no caminho mais ou menos adequado ao adotar esse modelo econômico.

O que queremos discutir é um ponto que, para a maioria dos cidadãos que acompanham o desenrolar das questões político-sócio-econômicas de nosso país, incluindo aí sindicatos e associações de empregados, passou despercebido nas discussões que antecederam os leilões e, mesmo depois, na transição da gestão.

Estamos falando da indiscriminada importação de mão de obra técnica e gerencial que sucedeu a chegada ao Brasil de empresas e consórcios estrangeiros, que passaram a controlar as ex-estatais.

Observamos que, sem quaisquer interferências ou manifestações dos órgãos e agencias governamentais, essas empresas estrangeiras entraram em nossa economia não apenas com o controle, não apenas com o intuito de explorar nossas reservas e/ou nossa população, na medida em que aumentam abusivamente as taxas cobradas pela prestação de serviços públicos. Mais do que isso, os novos donos do poder trouxeram também para baixo da linha do Equador a versão globalizada do Cavalo de Tróia.

Explico: ao abrirmos os portos às nações e multinacionais amigas (?!), sem nos salvaguardarmos em relação as leis que tratam da imigração e regulamentam o exercício de diversas atividades profissionais, milhares de estrangeiros entram no nosso país sem a mínima observância da legislação brasileira.

Muitos, se não a maioria, não estão legalmente habilitados para o exercício profissional no Brasil e sequer possuem o visto para trabalhar no país. Entram como turistas, vão até um país vizinho quando o visto se encerra e retornam no dia seguinte com novo visto de turista. Imagino se nós, brasileiros, conseguiríamos, com tamanha facilidade e permissividade, a mesma façanha. Entrar como turista para trabalhar na França, nos Estados Unidos, no Chile ou no Canadá, por exemplo. Seríamos solenemente impedidos de exercer qualquer profissão por não possuirmos a devida autorização legal. Ou seja, globalização de recursos humanos nos olhos dos outros é refresco.

Ë inevitável o questionamento: onde estão os Ministérios da Justiça e do Trabalho que permitem, ou são coniventes, com essas ilegalidades bem debaixo dos nossos bigodes? Em que país teremos, como profissionais globalizados qualificados os mesmos privilégios e condescendência governamentais? Nem os grupos de estudo do Mercosul que trabalham nesse sentido, obtiveram êxito até agora, dadas as peculiaridades e diferenças educacionais e legais de cada país.

Não resta dúvida de que os profissionais brasileiros, muitos dos quais sofrendo com a escassez de oferta no mercado de trabalho, têm competência equivalente ou superior à dos gringos que se aventuram nesta terra de ninguém. As empresas estatais e boa parte do setor privado investiram nos últimos 20 anos na formação de quadros de ponta, altamente qualificados, brasileiros detentores de tecnologia e conhecimento que chegaram (legalmente!) a cargos de direção em empresas e universidades estrangeiras.

É com esses excelentes quadros técnicos e gerenciais que estaremos prontos para atender as necessidades do nosso principal cliente: a sociedade brasileira. Porque são os brasileiros da gema que compreendem e interpretam adequadamente a cultura, os hábitos, os usos e os costumes de nossa gente.

Não se trata de preconceito e sim de conceito. Sem as correspondentes contrapartidas não estará sendo construída uma relação em que todos ganhem, mas de submissão à vontade das multinacionais e de diversos países com mercados estagnados ou com excedente de mão de obra.


Artigos anteriores:

Dez/99 - Relação Escritório Vs. Cliente (Carlos de La Roque, Pres. do CRC/RJ)

Jan/00 - Por Uma Administração Moderna, Eficaz E Voltada Para O Público (Wagner Siqueira, Pres. do CRA/RJ)

Fev/00 - Contabilidade E Pequenos Negócios Optantes Do Simples (Luiz Francisco Peyon, Contador)

Mar/00 - Mudanças e Educação no Ambiente de Trabalho (Luiz Avelino, Diretor da Avelino Andrade - Desenvolvimento & Educação Empresarial - Recife)

Abr/00 - Ciências Contábeis e Democracia (Luiz Francisco Peyon, Contador)

Peyon

Copyright © 1999 Peyon - Treinamento Empresarial em Contabilidade
WebSite desenvolvido pela
Nemesis Informática Ltda.
"Todos os direitos reservados."