ARTIGO - Agosto de 2002


Os CEOs não são dignos da confiança dos investidores

Há atualmente uma crise de confiança em torno dos balanços ganhos das empresas e da credibilidade dos CEOs. E ela é justificada.

Por muitos anos, eu tive pouca confiança nos números dos ganhos declarados pela maioria das empresas. Eu não estou falando sobre a Enron e a Worldcom --exemplos de pura desonestidade. Eu estou falando sobre os métodos contábeis legais, porém impróprios, usados pelos CEOs para inflar os ganhos declarados.

As maquiagens mais flagrantes ocorrem na contabilidade das opções de ações, e na suposição da rentabilidade dos fundos de pensão. A deturpação agregada nestas duas áreas encolhe as mentiras sobre a Enron e a WorldCom.

Ao calcular os custos dos fundos de pensão que afetavam diretamente seus ganhos, as empresas do índice Standard & Poor's 500 estão atualmente usando previsões de rendimento tão elevados quanto 11%.

A taxa escolhida é importante: em muitos casos, uma mudança para cima de um único ponto percentual aumentará os ganhos anuais que uma empresa declara em mais de US$ 100 milhões.

Não é surpresa, portanto, que muitos CEOs optem por previsões que sejam altamente otimistas, mesmo que seus ativos de fundos de pensão apresentem uma performance medíocre. Estes executivos-chefes simplesmente ignoram esta realidade desagradável, e seus condescendentes atuários e auditores aprovam qualquer taxa escolhida pela empresa.

Quão conveniente: o cliente A, usando uma taxa de 6,5%, recebe um parecer de auditoria limpo --assim como o cliente B, que opta por uma taxa de 11%.

Tudo isto é ruim, mas um pecado ainda maior tem sido a contabilidade das opções de ações. As opções são um custo enorme para muitas empresas e um benefício imenso para os executivos. Não é de se estranhar, então, que lutem ferozmente para evitar agir contra seus ganhos. Sem corar, quase todos os CEOs disseram para seus acionistas que as opções eram livres de custo.

Eu tenho uma proposta para esses CEOs: a Berkshire Hathaway venderá seguro, carpetes ou qualquer um de nossos outros produtos em troca de opções idênticas às que vocês concedem a si mesmos. Será tudo isento de dinheiro. Mas você realmente acha que sua corporação não terá um custo quando você entregar estas opções em troca do carpete? Ou você realmente acha que atribuir um valor a uma opção é algo difícil demais, uma das muitas desculpas para não atribuí-la como despesa? Se você realmente acredita nisto, me telefone a cobrar. Nós podemos fechar algum negócio.

Os CEOs freqüentemente alegam que suas opções não têm custo porque a emissão delas não envolve dinheiro. Mas quando fazem isto, eles ignoram que muitos executivos-chefes incluem regularmente a rendimento dos fundos de pensão aos seus ganhos, apesar deste item não contribuir com um centavo para suas empresas

Eles também ignoram outra realidade: quando as empresas concedem uma cota limitada de ações para seus executivos, elas são rotineiramente, e apropriadamente, declaradas como despesas, apesar de não haver dinheiro envolvido.

Quando uma empresa dá algo de valor para seus funcionários em troca de seus serviços, é claramente uma despesa de compensação. E se as despesas não devem constar na declaração de ganhos, onde mais elas deveriam constar?

Para arrumar estas duas frentes, os executivos-chefes não precisam de diretores "independentes", comitês de supervisão ou auditores absolutamente livres de conflitos de interesse. Eles apenas precisam fazer o que é certo. Como Alan Greenspan declarou fortemente na semana passada, as posturas e ações dos CEOs são o que determina a conduta das empresas. Na verdade, as ações do Congresso e da Comissão de Valores Mobiliários (SEC) têm o potencial de criar uma cortina de fumaça que impedirá uma verdadeira reforma contábil.

O próprio Senado é o principal responsável pelas empresas serem capazes de não declarar as opções de ações como despesas. Em 3 de maio de 1994, o Senado, liderado pelo senador Joseph Lieberman, fez com que o Conselho de Normas de Auditoria Financeira e Arthur Levitt, o presidente da SEC na época, recuassem da exigência de que as opções fossem declaradas.

Levitt disse que lamenta este recuo mais do que qualquer outra ação que tomou durante seu mandato como presidente da SEC. Infelizmente, a atual liderança da SEC parece desinteressada em corrigir esta questão.

Eu não acredito no Congresso estabelecendo regras de auditoria. Mas o Senado abriu as comportas para a inundação em 1994 ao gerar um sistema de declaração vale-tudo, e deve fechá-las agora. Ao invés de realizar audiências e críticas, por que o Senado simplesmente não libera o Conselho de Normas de Auditoria Financeira, anulando sua ação de 1994?

Os CEOs desejam ter respeito e credibilidade. Eles terão --e deverão ter-- apenas quando merecerem. Eles devem deixar de falar sobre algumas maçãs podres e passar a refletir sobre seu próprio comportamento.

Recentemente, alguns poucos executivos-chefes decidiram adotar uma contabilidade honesta. Mas a maioria continua gastando o dinheiro de seus acionistas, diretamente ou por meio de grupos setoriais, fazendo lobby contra qualquer reforma real. Eles falam em princípios, mas para a maioria, o motivo é o próprio bolso.

No interesse dos acionistas, e do país, os executivos-chefes deveriam ordenar já para seus departamentos de contabilidade que deixem de declarar rendas ilusórias dos fundos de pensão e comecem a declarar todos os custos compensatórios.

Eles não precisam de estudos ou novas regras para fazer isto. Eles só precisam agir.

Warren E. Buffett é o executivo-chefe da Berkshire Hathaway Incorporated. Ele é considerado o maior investidor de ações do mundo

Peyon

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